quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Perto do hospital, não da saúde


22 de agosto de 2012

O EXPRESSO DA DOR

Sem atendimento do Samu, idoso morre mesmo tendo unidade a 400 metros de casa

Por Ruben Berta
rberta@oglobo.com.br


Se pacientes enfrentam longas viagens, de até 24 horas, de cidades do interior do estado em busca de saúde no Rio - conforme O GLOBO vem mostrando desde o último domingo na série de reportagens "O expresso da dor" -, há também quem sofra mesmo tendo o atendimento bem perto de casa. Na manhã da última quinta-feira, 16 de agosto, o corretor de imóveis Nilson Carlos Pessanha Júnior perdeu o pai, Nilson Carlos Pessanha, de 78 anos, vítima de uma parada cardíaca. O idoso, que tinha câncer de próstata, morava a 400 metros do Hospital Municipal Carlos Tortelly, no Bairro de Fátima, em Niterói, local onde também funciona a central regional do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Segundo Júnior, os familiares fizeram 12 ligações, desde as 9h, para pedir uma ambulância para levar seu pai - que pesava cerca de 120 quilos - para a unidade, sem sucesso. No auge do desespero, ele chegou a ir à central para pedir ajuda e ouviu um "não" como resposta. Carregou então, a duras penas, junto com os irmãos, o pai enrolado num edredom e o levou de carro para a unidade. Às 10h44m, pouco depois de dar entrada no hospital, Nilson Pessanha morreu.

Sofrimento. Nílson Júnior segura a 
certidão de óbito e a última foto do pai
- Fica uma sensação de raiva muito grande, que estou transformando em energia, para denunciar o caso e lutar. Via sempre coisas assim acontecerem na televisão, mas dessa vez senti na própria pele - afirma Nílson Júnior.

Relatório aponta problemas no serviço

O caso que terminou com a morte do idoso pode ser apenas um exemplo de como o transporte do Samu passa por uma crise na região conhecida como Metropolitana 2, que engloba os municípios de Niterói, Itaboraí, Maricá, Rio Bonito, São Gonçalo, Silva Jardim e Tanguá. No ano passado, as próprias prefeituras locais solicitaram a elaboração de um relatório, chamado Plano Regional de Urgência e Emergência, que já detectou problemas no serviço: "Baseado nas novas normas do Ministério da Saúde, para uma população de 2 milhões de habitantes nas cidades, o sistema deveria contar com o efetivo de cinco médicos reguladores (responsáveis pela avaliação dos casos solicitados pelo telefone 192) no período diurno e quatro no noturno. Isso efetivamente não vem ocorrendo por vários fatores, principalmente o não interesse de profissionais devido a faixa de remuneração e [más] condições de trabalho físicas e emocionais".

O próprio pátio do Hospital Carlos Tortelly retrata o abandono. Lá, há um verdadeiro cemitério de ambulâncias, que acumulam sujeira e ferrugem. O presidente da Associação de Funcionários do Samu, Leandro Santos do Vabo, não economiza críticas:

- Em Niterói, acredito que só haja atualmente metade dos médicos necessários. A quantidade de veículos também é insuficiente, já que boa parte está quebrada, apesar de a verba para a conservação ser bastante alta. Em São Gonçalo, por exemplo, ao ligar para o 192, o usuário só consegue atendimento em casa depois de no mínimo duas horas e meia.

Nílson Júnior só vai guardar lembranças tristes do Samu. Ele diz que, ao ir à central de atendimento, ouviu de uma atendente que os pedidos só poderiam ser feitos por telefone. Na frente dela, ligou do celular e não foi atendido.

- Fizemos 12 ligações. Até fomos atendidos em três, mas não providenciaram nada. A atendente ainda me disse pessoalmente que, se eu conseguisse ligar, a ambulância que estava parada na frente do hospital não ia pegar meu pai porque estava quebrada - diz Júnior. E ressalta: - Foi muito difícil levá-lo. Quando chegamos à porta da unidade, só havia funcionários terceirizados, que não ajudaram. Outros pacientes nos auxiliaram a carregá-lo no edredom. Mas, a partir do momento em que entramos na emergência, vi esforço da equipe médica.

A Secretaria estadual de Defesa Civil informou que tem gerência apenas sobre o Samu da capital. Já a assessoria da Secretaria de Saúde de Niterói informou que "possui três médicos no plantão diurno e dois no noturno, na Central de Regulação", e que "não são preconizados seis médicos pela cobertura populacional". O órgão disse ainda que conseguiu no Ministério da Saúde R$ 325 mil para aumento e reforma da central, com licitação em andamento. E afirmou também que há seis ambulâncias em uso na cidade. Sobre o caso de Nílson, disse que terá de ser analisado posteriormente, porque há muitas demandas, de sete municípios, concentradas em Niterói.

*Retirado do O Globo


Um comentário:

  1. Por esse e muitos outros casos não divulgados sou contra a privatização

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