05/06/2013
Republicado no blog da Frente Nacional contra a Privatização da Saúde em 06/06/2013
Por Pedro Jesus Silva,
presidente do Coren-RJ
Julgar sem bem analisar ou emitir opinião vazia de embasamento virou uma perigosa moda. A irresponsabilidade chegou à melhor e mais conceituada imprensa, que não aguarda a apuração cuidadosa e isenta, preferindo atropelar os fatos com as versões mais escandalosas, mas que lhe garantam maior pontuação na audiência. Esquecem que, por detrás dos dramas, existem pessoas, seres humanos que vivem em sociedade e são cobrados sem descanso por ela.
Em outubro de 2012, após um ataque de histeria coletiva, resolveu-se que uma idosa teria morrido após receber café com leite na veia, injetado pela estagiária Rejane Moreira Teles, no PAM de São João de Meriti, agindo sob a coordenação de negligentes profissionais da Enfermagem. A estagiária acreditou ter cometido o erro fatal, tanto que se submeteu espontaneamente ao linchamento moral promovido pela emissora líder, numa entrevista em rede nacional em seu programa dominical de grande audiência. O episódio acabou por respingar em toda a categoria, que virou alvo de piadas e, mais do que nunca, rotulada de displicente e despreparada. Naquela época, o Coren-RJ negou-se a dar entrevista exatamente por não contar com dados que apontassem conclusivamente para o que realmente ocorrera.
Hoje, diante do laudo assinado por um perito legista, constata-se a covarde injustiça cometida contra uma jovem que sequer se iniciara numa profissão e já ficara marcada como negligente: no laudo cadavérico da Sra. Palmerina Pires Ribeiro (80 anos) não foram "evidenciados sinais de embolia gordurosa cardíaca e pulmonar", afastando a possibilidade de a paciente ter recebido café com leite por via venosa. O exame classifica como causas do óbito infecção pulmonar e infecção urinária, patologias que não indicam ocorrência por injeção intravenosa de café com leite.
Ou seja: a estagiária não errou, mas teve seu futuro profissional subtraído por uma mídia sedenta de audiência, que não pratica um dos principais mandamentos do bom jornalismo, que é a apuração isenta e responsável da notícia.
